Desfiles de moda em tempos de quarentena

20/07/2020  •  Por Thereza  •  Moda, Pense

Eles existem sim! A indústria da moda é parte importante e uma das maiores da cadeia de comércio, indústria e negócios em geral. Antes de mais nada, muito associam moda com futilidade, luxo ou supérfluo, mas vale lembrar que gera milhões de empregos pelo mundo, com isso, como equilibrar a necessidade (?) de seguir em frente x o bom senso de ainda evitar certas práticas?

O mês de junho e julho são meses importantes para o mundo da moda no que diz respeito a desfiles e apresentações e justamente esses dois meses foram basicamente o auge da pandemia, mas também “despressurização” da quarentena em alguns países. Só nesse período podemos citar a temporada de moda masculina em Milão, desfiles de alta costura em Paris e também todas as coleções resort que são apresentadas ao redor do mundo. Como as marcas tem se reinventado em tempos como esse?

Na alta costura, por exemplo, a Dior apresentou um Fashion Film – o que nem é tão inovador assim, mas ainda razoável para tempos de distanciamento social. Já Balmain levou modelos para um passeio de barco, enquanto Chanel apresentou apenas um lookbook e vida que segue.

A polêmica mesmo veio essa semana com a volta de desfiles presenciais. A italiana Etro reuniu uma platéia diminuta, com um certo distanciamento social entre uma cadeira e outra, mas poucos foram vistos de máscara. As modelos então… nenhuma máscara criativa para mostrar os novos tempos. Mais do que na hora do show, o backstage em si é sempre cheio e tumultuado, como os profissionais envolvidos ficam? Seja o que Deus quiser.

Vale lembrar que a Itália a quarentena acabou e parece que até o uso de máscara foi liberado em certas regiões, mas as pessoas ainda esperam um pouco de, talvez, bom senso, ou uma reinvenção fashion… mesmo que temporária.

Ainda em Milão, a sempre polêmica Dolce & Gabbana apresentou seu desfile de moda masculina com nenhum distanciamento social ou nada que lembrasse o novo normal. Máscaras? Pouco se viu, mas Domenico e Stefano usaram as suas.

Partindo pra França, a incensada Jacquemus, que ano passado fez um lindo desfile numa plantação de lavandas, dessa vez optou por trigo e um desfile mais compacto, mas ainda presencial.

O que fica disso tudo são algumas questões, se para muito a vida anda seguindo, as indústrias voltando ao eixo – mesmo que precocemente, na indústria da moda o questionamento e polêmica parece ser ainda é maior. Esses estilistas deveriam estar em casa? Os desfiles poderiam voltar timidamente?

E quando setembro e a temporada de primavera/verão chegar? Quem tem dinheiro e/ou criatividade vai se reinventar, outros não vão se importar e ainda terão aquelas marcas que não conseguirão sobreviver e irão naufragar.

Pra finalizar, um bom exemplo de reinvenção em tempos de pandemia, a Gucci apresentou na última sexta uma coleção diferente. Não tinha desfile, mas teve 12h de live e nada de modelo, designers da marca que vestiam cada peça do sempre criativo Alessandro Michelle. Uma boa ideia – e relativamente simples – de um segmento que é conhecido por sua criatividade e em tempos como esse ela precisa estar mais aguçada que nunca.

O que vocês esperam da moda em tempos de pandemia e quarentena?

A construção do amor na gravidez

07/07/2020  •  Por Thereza  •  maternidade, Moda, Pense

É óbvio, crescemos com a cultura e ideal romântico de filmes e novelas. Aquela gravidez perfeita, bonita e plena, todo o lado bom da gestação (que sim, tem e são muitos, garanto)… já disse plenitude? Mas uma coisa poucos falam até mesmo nessa geração maternidade desconstruída: a construção do amor. Ele geralmente não vem instantâneo, ele é gradual, mas cresce numa progressão geométrica, como deve ser.

Eu juro, joguei no Google, perguntei pra minha médica se o “problema” era comigo, pois o amor surgiu aos poucos. Não foi como numa novela ou comercial , a ficha demora a cair e diria, ela nem cai, mas vai escorregando, a minha, do alto das minhas 24 semanas, ainda está escorregando suavemente, mas cada vez mais forte. É muito bom.

Quando descobri que estava grávida, chorei. Chorei de emoção, de alegria, mas também de medo, susto, pânico. Lógico que meu trauma da gestação anterior teve um grande impacto nisso, mas a incerteza ronda, parece aquele tipo de relacionamento que você não quer se entregar, se apaixonar. Você precisa conhecer a pessoa antes. Nesse caso, é preciso saber se tem um bebê aí (lembrando que tive uma gravidez anembrionária, o que constitui na não-evolução do embrião e apenas crescimento do saco gestacional), com isso, esperei 7 semanas pra relaxar um pouco. Peraí, achei que ficaria relaxada, que nada, vamos esperar mais um pouco, mais precisamente até o ultrassom da 12a semana que é quando diminui bastante as chances de perda gestacional.

E com o passar das semanas o medo vai até diminuindo, entra sim a alegria e emoção, mas você não consegue pensar em muitas outras coisas, muito provavelmente pelo fato do enjoo vir com tanta força. É aquele turbilhão de sensações, não vou dizer ruins, mas que te deixam apreensiva e um pouco anestesiada.

Eu não relaxei nos 3 primeiro ultrassons que fiz, só no quarto que fui mais tranquila (e olha que era a morfológica, o exame mais completo), pois já estava começando a sentí-la mexer e isso já é um alívio natural e instantâneo. Ver a barriga crescer também a certeza visual que ela está ali e mais precisamente dentro de você. Preciso dizer, é bizarro, mas maravilhoso também.

E sobre a tal construção do amor, ela vem paulatinamente, aos poucos, lentamente você vai sendo tomada por novas sensações, emoções. Você chora, ama, mas você fica muito aliviada. Minha sensação é mais de um alívio, um acolhimento, eu a acolho e ela me acolhe diariamente. Somos protagonistas da construção dessa história e isso sim encanta e atesta o tal do amor.

Não que no início não houvesse sentimento positivo, havia já a sensação de superproteção, cuidado e, sim, a insegurança, mas com o tempo entra também o amor quentinho, às vezes silencioso, mas eternamente progressivo. É assim que me sinto a cada dia, é sempre mais que o anterior e não faço ideia como será amanhã ou quando ela nascer.

Minha ficha ainda está escorregando, mas cada vez mais forte e também suave.

O novo consumo: conscientização ou revenge shopping?

03/06/2020  •  Por Thereza  •  Moda, Pense

Quando o assunto é pandemia, logo, quarentena, muitos debates surgem tentando entender esse “novo normal” da nossa sociedade. No que diz respeito ao tema do blog, vale refletir sobre um: comportamento de consumo. Desde 2014 faço posts mais, digamos, reflexivos, sobre a engrenagem da moda e como nossa forma de consumir, seja roupa ou informação, vem mudando (lembram desse post “a forma como você consome moda está mudando”?!). Esse assunto me desperta interesse não apenas pelo caráter “fashion”, mas também pelo lado antropológico e de entendimento sobre nossas escolhas e estilo de vida.

Dito isso, desde o início da quarentena mundial (com muitas ressalvas, né), debateu-se algumas questões: o futuro da influência (essa abordarei num post futuro) e como as pessoas vão consumir após meses de reclusão social. O que esperar não apenas da economia, mas como vamos encarar um armário, suas tendências e como vamos sair arrumadas por aí. Quando a gente vai sair?

Numa linha, digamos, mais otimista – uns dirão, ingênua – no início acreditou-se que haveria uma grande revolução no consumo: as pessoas comprariam bem menos. Valorizaremos experiências. Roupa é luxo. Foco no meio ambiente. Pra que tanta roupa se a gente nem pode sair. Maquiagem não tem mais sentido, vamos viver com máscaras. E por aí vai.

De primeira, bem no início da quarentena, de fato esse era um ideal bonito e de acordo com tais tempos bicudos. Mas não durou muito tempo e, arrisco dizer, que o efeito logo se tornou contrário, afinal, quanto mais tempo passamos em casa, quando saírmos, vamos tirar o atraso e comprar como se não houvesse amanhã (risos preocupados). E logo surgiu a expressão “revenge shopping”, aquele ideal de comprar na vingança pra compensar o período sem compras (o que na realidade nem é assim, afinal, os e-commerces seguem bombando). Com isso, muitos planos, ideias de looks, makes e afins… as pessoas já ficavam sedentas e planejavam uma urgência consumista.

“Ah não, não pode ser”, pois foi… pelo menos lá fora tá sendo muito. No primeiro sinal de fim da quarentena chinesa, pipocaram matérias falando o quanto a poderosa Hermès faturou na “vingança dos consumidores”: U$2,7 milhões de dólares em apenas 1 dia. “Ahh, mas eles devem vender isso num dia normal”. Parece que não, segundo dados, esse foi o melhor resultado diário para uma única loja na história da China. Sinal que essa conscientização por conta de Corona jamais viralizou entre os super ricos, claro.

“Ahhh, mas falar isso da Hermès é fácil, me dá um exemplo vida real”. Pois muito que bem, algo semelhante acontece na Zara francesa. Com a flexibilização da quarentena no país (que foi bem rígida), acharam que eles iam comer um croissant com champagne na beira do rio Sena contemplando a Torre Eiffel? Que nada, eles correram pra Zara mais próxima. A aglomeração foi fora do comum e, seja couture ou fast fashion, o ideal da conscientização não é apenas romantizado, mas também muito distante do ideal capitalista com o qual estamos acostumados e não vai ser um vírus (horroroso) que vai mudar isso, pelo menos a curto prazo. O materialismo vai sobreviver.

Corta pro Brasil, aqui a quarentena saiu pior que a encomenda, nem metade da população aguentou (OU PÔDE) ficar em casa. Aqui no Rio, o comércio se prepara para reabrir e, falando do Brasil todo, com essa flexibilização mais imposta pelos nossos governantes do que por especialistas de saúde, uma coisa é certa: o consumismo desenfreado vem com tudo, mas também algo que nenhum país vai enfrentar com tanta força, as pessoas simplesmente não terão grana pra nenhum extra (estamos falando de moda e beleza, ou seja, extra). Impossível fazer um post como esse e não citar a questão econômica e social do país que, em tempos de pandemia, está pandemônica.

Dito isso, acredito que quem, antes de quarentena, já estava revendo seu comportamento de consumo, se conscientizando no que diz respeito ao vestir, consumir e sustentabilidade, com certeza usou esse período para refletir e fazer dele o turning point de novos tempos, mas, essas pessoas são uma pequena parcela da sociedade.

No geral, o ato de comprar está muito mais enraizado na nossa rotina, de sair pra passear e o shopping ser o destino, de ter uma graninha extra e gastar com brusinhas e isso eu não julgo (até porque estou nesse momento construindo um armário de um novo ser humano), o que talvez nos restará pra esse momento de quarentena – que deveria estar longe de terminar – é muito da nossa relação com a moda, tendências e valorizar esse tal momento presente. Vou guardar a roupa de hoje pra usar amanhã? Vou deixar de usar a make x porque é brilhosa demais? Vou me privar de usar tal tendência ou estilo? A velocidade da tendência e o impacto dela no nosso armário, isso certamente vai mudar de alguma forma, e digo para roupa e também beleza.

No final das contas – talvez literalmente falando, o tal do “revenge shopping” será de fato mais expressivo do que a conscientização, mas também não durará muito. Creio que numa nova era – e talvez eu me renda à ingenuidade do início do post, as pessoas não vão deixar de comprar, mas tentarão entender o que é essencial, buscarão por prioridades e deixarão o consumo por indulgência para experiências (um jantar, um passeio) e um pouco menos para compras. As marcas que notarem essa tal busca-pelo-essencial sairão na frente e entenderão a identidade e necessidade desse novo consumidor disposto a comprar, mas comprar o que é prioridade (ok, sem esquecer daquela indulgência no meio do caminho).

O que a gente tira disso tudo? A questão social impera e não pode ser deixada de lado, no mais, vale entender sim como a gente vai enxergar a moda daqui pra frente, o que deixaremos de lado e o que podemos agregar num mundo totalmente transformado e repaginado. O que você espera dessa nova forma de consumir?