Cannes, salto alto é opcional

15/05/2018  •  Por Thereza  •  Moda

Estamos no meio da luxuosa temporada de Cannes, um dos principais festivais de cinema do mundo. Estatuetas, luxo, glamour, ostentação. O tapete vermelho recebe os nomes mais famosos e poderosos do universo e, ao mesmo tempo que filmes são premiados, vemos os vestidos mais deslumbrantes feitos pelos mais nobres estilistas em atividade.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas… reza a lenda algo muito retrógrado, pra não dizer machista: a organização proíbe que as mulheres atravessem o red carpet usando rasteirinha e sapatos flat em geral. A regra não é escrita, mas é um dresscode velado do festival e que faz parte da tradição de décadas. O evento está em sua 72ª edição e já estava mais do que na hora das mulheres mudarem essa ultrapassada formalidade.

salto alto cannes

Há 2 anos, alguns fatos chamaram a atenção da mídia  acerca do tema. Várias produtoras foram barradas por usarem salto baixo, uma delas, inclusive, tinha um dos pés amputados. Logo após o incidente, Julia Roberts, em sinal de protesto, atravessou o tapete descalça. Daí, imediatamente os organizadores do evento vieram a público se desculpar e contemporizar a situação.

Dizem que de 2017 pra cá, o tal dresscode ficou mais flexível, produtoras e nomes que chamam “menos atenção” dos fotógrafos já conseguem entrar com sapatos mais baixos e fica tudo bem. Mas um fato que aconteceu ontem em Cannes reacendeu o debate, não só do dresscode, mas especialmente dos limites dos saltos vertiginosos, tudo pelo fashionismo?

kristen stewart cannes

kristen stewart cannes

Kristen Stewart tirou seu Louboutin dos pés no meio do tapete e subiu as escadas rumo à sessão de cinema. Isso não é lá muito novidade em se tratando da atriz que, por muitas vezes, já tirou os sapatos durante premiações, isso quando não foi de tênis mesmo e pronto, Kristen é muito autêntica. Nessa ocasião, não foi dito oficialmente se essa atitude dela tenha sido alguma forma de protesto. Kristen Stewart simplesmente não se sente confortável de salto alto e tá tudo bem.

Obviamente que tirar o sapato no meio de milhares de fotógrafo, no evento mais badalado do mundo, já é um manifesto por si só. Se isso é algo forçado por seu PR apenas pra causar e gerar pautas e fotos, jamais saberemos, mas o fato é: é preciso rever toda essa obrigação de sair com salto 12 por aí.

Ano passado mesmo, postei sobre a minha condição ortopédica rs e de quanto estou cada vez menos usando saltos altíssimos, não só pelo conforto, mas por questão de saúde mesmo. Por outro lado, nem a rasteirinha é a solução pra mim, mas sim saltos baixos, 5cm, kitten heels, salto bloco. A ideia é tentar desconstruir a política do 12 cm ou nada.

Para Cannes, uma boa sugestão de como é possível ter uma rasteirinha ou sapatilha e ainda harmonizar bem com um belo longo. Pra gente da vida real, a montagem acima inspira e mostra que não é apenas possível, mas sinal de conforto, personalidade e estilo.

No caso específico da Kristen Stewart, talvez ela até goste de salto, ache bonito, mas não se sinta confortável na hora h. Quem nunca viu um salto lindíssimo, comprou, usou e não se habituou? Mas tão bonito de rosto.

Já no quesito técnico de styling e sua relação de amor x ódio com Louboutin (que sabemos que não é o sapato mais confortável do mundo), não temos conhecimento se existe um contrato (isso é super comum) que a faz usar a marca assim de forma extenuante, já que ela segue com seus scarpins indefectíveis da sola vermelha. Lembrando que a atriz é embaixadora oficial da Chanel e taí sapato confortável e com vários tipos de salto.

Não sabemos o motivo pela qual ela não diminui a altura dos saltos, mesmo aparentemente se sentindo desconfortável com a maioria deles, ainda mais Kristen sendo tão “free spirit” e nada “fashion victim”. Jornalisticamente falando, tenho curiosidade, mas isso é o de menos, no mais, que gestos oficiais como o da Julia e involuntários como o da Kristen, ajudem a tirar o estigma da obrigação de usar salto alto o tempo todo.

Seja no tapete de Cannes ou na pedra portuguesa perto da sua casa, salto alto é lindo, mas é opcional.

 

Menstruação em tempos de meio ambiente e feminismo

14/03/2018  •  Por Thereza  •  Pense, Saúde

Vivemos uma revolução digital, técnologica, política e social. Estamos no meio de um turbilhão e presenciando um período decisivo para um amanhã melhor. Filosofias à parte, essa mudança chegou, quem diria, ao tradicional absorvente (eu ainda chamo de modess, mais alguém?! #idades).

E não estou falando apenas de inovações mais recentes, como os providenciais copinhos ou calcinhas absorvente, mas uma mudança maior e mais significativa.

Você sabia que usaremos 11 mil absorventes íntimos em nossa vida? E que por ano são usados mais de 100 bilhões de absorventes no mundo? Pois bem, de que ele basicamente é feito? De plásticos e aditivos químicos que prejudicam a natureza. Agora apesar desse resíduo não ser nem 1% do nosso lixo produzido no ano, é preciso ficar alerta para essas questões que envolvem os absorventes tradicionais (dizem até que eles são responsáveis por muitas doenças íntimas).

Absorvente orgânico

Com toda essa revolução e atenção ao meio ambiente, é mais do que natural uma nova percepção sobre uma questão muito comum. E, apesar dos primeiros terem sido mais caros e menos acessíveis, os absorventes orgânicos feitos apenas de algodão podem resolver não apenas questões de sustentabilidade, mas também nossa saúde íntima.

Agora sabe graças a que uma nova onda de marcas vem surgindo com foco num produto tão popular e necessário? Veja só, o feminismo. Você sabia que só recentemente que foi veiculado um anúncio de absorvente usando “líquido vermelho” (e não aquele azul de praxe)?! A menstruação é tabu, mas não deveria. Agora com essa era mais empoderada, tópicos como saúde íntima e a mais pura e bela arte de menstruar tem ganhado mais espaço, logo, o debate foi além.

Li uma matéria muito legal no BoF falando da quantidade de startups surgindo que buscam não apenas conscientizar, mas também modernizar esse universo que não tem crise, afinal, a gente sempre vai comprar algo pro nosso período. Separei alguns destaques:

Absorvente orgânico

LOLA

A ideia inicial da marca americana era criar um clube de assinatura de absorventes (outro novidade cada vez mais popular), mas logo descobriram que o FDA (órgão americano que controla remédios e similares) não exige que os fabricantes divulguem os ingredientes de um absorvente, com isso, eles viram um oportunidade de ser uma marca focando na transparência em divulgar seus ingredientes. O foco da empresa são produtos simples, sem toxinas, fragrâncias ou fibras sintéticas. Simples assim! Uma caixa com 12 absorventes custa em média U$9 (à partir do momento que você assinar o clube, vai ficando mais barato).

A empresa tem uma estética super cool e minimal e vai além, usa seus canais para criar uma conversa sobre menstruação e saúde reprodutiva, diferente da forma engessada que marcas tradicionais usam suas redes sociais. Pra ver como a ideia funciona bem, em pouco tempo de vida já tem quase 100k seguidores, enquanto a tradicional Tampax não chegou nem aos 20k.

CALLALY

A marca inglesa tem a mesma proposta da Lola, foco total nos produtos orgânicos. Eles usam sua marca como veículo para propagar o assunto e simplesmente humanizar um dos gestos mais humanos do mundo, a menstruação. Em suas redes sociais eles falam do mito do período perfeito (e da modelo perfeita usando absorvente) e ainda usam as #bloodnormal e #freeperiods para estender o debate e, claro, vender mais absorventes.

Outras marcas que tem o propósito similar: Totm (box de assinatura); Dame (aplicador reutilizável de absorvente interno, eles usam o slogan, “menstrue vermelho, pense verde”); Thinx (calcinha absorvente); Pantys (calcinha absorvente feita no Br); Flex (disposito menstrual flexível).

Absorvente orgânico

Estudos mostram que as consumidoras de absorventes ainda são muito tradicionais e tendem a comprar o mesmo produto e marca por anos e anos, mas sabe o que vem trazendo mais sucesso à essas novas marcas? Blogs e sites sobre o universo feminino abordando mais o tema, conscientizando suas leitoras e mostrando opções além do tradicional.

Por fim, a nova geração millennial é mais antenada e preocupada com o meio ambiente e sempre em busca de novas marcas, mostrando assim que um novo público está se formando e mexendo no até então intocável absorvente íntimo. Preparadas?

 

Como o Mindfulness tem mudado minha perspectiva sobre a vida

15/01/2018  •  Por Thereza  •  Pense, Saúde

“Nós só temos um momento pra viver, e é o agora, mas tendemos a nos apegar mais ao passado ou projetar o futuro. É raro notarmos o que está acontecendo no presente”

Sempre quando viajo, costumo falar em voz alta e de repente, “estou no lugar tal”, “estou fazendo coisa tal”. Seja num ponto turístico ou restaurante que sonhava conhecer, eu falo pra quem está do meu lado (que muitas vezes não entende rs) que eu estou naquela hora e naquele lugar fazendo algo que sempre quis fazer, é como se eu tivesse registrando aquilo na minha mente.

Eu não sabia, mas isso é Mindfulness puro (em português, Atenção Plena)! Conheci essa técnica no início do ano passado e posso dizer que minha vida simplesmente mudou. E foco aí na palavra simples. Coisas simples mudaram, mas que fizeram toda a diferença, entende? Explico.

Meu primeiro contato com o Mindfulness foi na fila do mercado, onde ficam aquelas revistinhas. Era uma publicação de saúde e tinha uma foto de um mulher estressada na capa e a chamada era algo como “descubra a nova técnica de meditação que está na moda e transformará sua vida”, daí eu comprei, claro. Logo depois, comecei a ver uma ou outra pessoa falando sobre a tal técnica e pronto, entrei nesse universo até então desconhecido e talvez desacreditado pra uma pessoa cética feito eu.

Mas afinal, do que se trata o Mindfulness? Apesar de ter uma referência budista, não é nada religioso, é uma técnica científica de meditação, é um estilo de vida que te faz simplesmente prestar a atenção no momento presente, te faz recuperar os sentidos. É um treino mental que te tira do piloto automático da vida e te mantém atenta, porém relaxada. Te faz receber as coisas que estão acontecendo com você (sejam as boas ou ruins), realizar, aceitar, encarar ou simplesmente aproveitar. O benefício é a conscientização da vida agora, encarand0-a de frente, mas com serenidade, a idéia é você valorizar cada bom momento da vida, mas também estar pronto pra lidar com as dificuldades de forma mais preparada e ponderada. Você fica mais resiliente, tudo isso a uma respiração de distância.

Como isso acontece? Treinando seu cérebro basicamente através da respiração, do reconhecimento do seu corpo, sensações e pensamentos. É uma percepção daquilo que você está sentindo e até mesmo ouvindo, se conectando com momentos cotidianos que formam o tal momento presente. Isso ocorre seja você deitado ouvindo sua respiração, caminhando e observando cada paisagem ou até administrando pensamentos nocivos. Muitas vezes, a Atenção Plena é também buscar se concentrar no nada, mas o mais importante: ter a plena noção e domínio da sua mente. Parece uma viagem ou uma loucura, mas é simples e MUITO eficiente.

Por que eu precisei do Mindfulness? Nada grave, mas eu tenho umas questões e até bagagens de vida, sou ligeiramente ansiosa e estressada, e quem não é um pouco disso nos dias de hoje? E o que mais me incomoda, a hipocondria. Eu sempre acho que posso estar com a próxima doença x e ter o piripaque y, com isso, muitas vezes esse misto de medo e ansiedade me consumia a um ponto que me incapacitava de realizar até mesmo simples tarefas. Junto a isso, o advento da idade deixava tais medos mais próximos, mais reais e me aproximava de pensamentos que talvez eu desejasse ter apenas aos 80 anos (se Deus quiser eu vou chegar lá rsrs).

Eu sempre fui muito tranquila, desapegada, mas sabia que esses pensamentos não eram mais apenas exceções e estavam me tirando do eixo de forma recorrente, logo, sem necessidade de ~intervenção maior, o Mindfulness tem me ajudado a me encontrar e buscar até mesmo um propósito. É simples, mas não é de uma hora pra outra.

O primeiro passo pra imersão ao Mindfulness, foi comprar o livro Atenção Plena, acredito que ele seja o mais famoso e é muito direto ao ponto. Ele faz uma boa introdução à técnica e depois completa com 8 exercícios de meditação pra ler/fazer 1 por semana, que vão da mais simples e com técnicas de respiração e BodyScan, até mesmo aquelas de “emergência” para quando você se vê estressado. O livro ainda tem exercícios bem legais como “liberadores de hábitos” e outras técnicas rápidas que deixam tudo mais interessante. Ele ainda vem com cd pra você ter a meditação guiada (mas eu ouvi todas online aqui).

O legal dessa técnica é que eles também desmitificam um pouco da meditação clássica (os mais ortodoxos dizem que Mindfulness é americanizada demais), você não precisa botar uma roupa zen, esticar um tapete, fazer pose, com o Mindfulness você pode se conectar no meio do trabalho, deitada antes de dormir, enfim, simplifica-se. O que se sugere, e acredito que isso sirva pra tudo na vida, é criar um hábito, sejam 5, 10 ou 20 minutos, que você busque um tempo conectado com você.  A meditação é uma prática simples que ganha poder com a repetição, ela não resolve nada a curto prazo, mas fornece a perspectiva de que é possível melhorar.

Outra coisa legal que aprendi mais ainda com a técnica, é que ela é mais que uma respiração, ela te dá mais compaixão. Ela ajuda você a observar seus pensamentos sem julgamento, ela basicamente respeita tudo que passa pela sua cabeça, te acolhe e te ajuda a tomar um rumo antes que qualquer pensamento negativo desencadeie sobre você. Agora mais do que isso,  ela te incentiva a ser uma pessoa melhor para com os outros, ter mais empatia e compreensão. Segundo eles, a parte do cérebro que é ativada como sentimos de empatia genuína é a mesma que é acionada pela meditação da atenção plena: a ínsula.

O legal é que em tempos de vida agitada e pessoas cada vez mais multiconectadas, o mindfulness tem surgido forte como uma forma de terapia barata, simples e eficiente. Nos Eua, existem aulas para crianças entenderem desde cedo e desde sempre foi recomendado pelo Ministério da Saúde como forma eficaz e cientificamente comprovada no combate às doenças ~modernas, que vão de ansiedade a síndrome do intestino irritável.

Esse post está ficando enorme e merecia uns 5 capítulos, mas vale lembrar que aqui eu obviamente não ensino ninguém a meditar, apenas compartilho minha experiência e incentivo fortemente que se deem a chance de fazer o mesmo. Se trocamos dicas de moda e beleza, acredito que esse universo de bem estar tem ganhado mais espaço e mais importância no nosso universo, pois no final das contas está tudo meio ligado! Se vocês curtem o tema, posso voltar com mais pautas pra gente trocar ideias (posso falar de mais livros sobre o tema) e se você tem vivenciado esse momento presente, conte sua história, quem sabe assim não incentiva mais e mais gente!

“Mindfulness significa conscientizar-se plenamente da vida que você já tem, em vez de focar na vida que você gostaria de ter.”

 

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