VINHO DE QUINTA: DESVENDANDO A UVA CARMÉNÈRE

24/09/2015  •  Por Rodrigo  •  Gastronomia, Vinho

Há um certo tempo que tenho vontade de falar sobre variedades de uva, pois acredito ser uma forma interessante de se familiarizar com cada estilo. É uma boa maneira de descobrir o próprio gosto e se direcionar para os vinhos produzidos com a variedade de sua preferência. Até aí tudo bem, mas quando se trata uvas viníferas, devemos levar em consideração a região onde ela foi plantada.

A Cabernet Sauvignon, quando produzida nos EUA, por exemplo, tem características completamente distintas da plantada na Itália. Assim sendo, para se entender com maior exatidão o estilo de cada uva, deve-se prestar atenção no país aonde o vinho foi elaborado.

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Algumas publicações acabam generalizando os vinhos pela uva com descrições genéricas, mas o importante é entender que cada região possui clima, solo, e cultura de produção particular. É muito comum uma pessoa se afeiçoar por uma uva em função de já ter tomado um vinho feito com ela e ter gostado. Por exemplo, você pode ter tomado um Pinot Noir chileno leve e docinho e adorado, se for pedir num restaurante pela uva e receber um Borgonha, verá que é completamente diferente. Resumindo, com vinho não da pra generalizar.

Por isso, resolvi começar falando da Carménère, mas por que? Simples, 99% dos vinhos dessa uva vendidos no Brasil são chilenos, assim posso concentrar as dicas em um único país. Outra coisa, já recebi alguns comentários de leitoras dizendo que não gostam da uva e que já tiveram experiências ruins com os vinhos. Claro que isso parte do gosto pessoal, contudo a Carmenère tem algumas particularidades e dependendo de como for cultivada, pode produzir vinhos espetaculares, frutados e suculentos, mas também pode resultar em vinhos com aspectos um pouco desagradáveis para muitos paladares.

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A Carménère é originária de Bordeaux, na França, e era utilizada junto com a Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot e Petit Verdot. Com uma praga que surgiu no século 19, ela foi praticamente extinta da Europa e foi reaparecer no Chile, provavelmente levada por imigrantes europeus. Por muitos anos acreditou-se que a Carmenère plantada no Chile fosse a mesma uva que a Merlot. Somente nos anos 90 que ela foi identificada e passou a reinar nas terras chilenas.

Até aí tudo bem, mas o que pode dar errado em um vinho Carménère? É uma casta muito sensível e que precisa de atenção especial, principalmente pelo fato de demorar mais para amadurecer se comparada com outras variedades. E é ai que mora o perigo, alguns produtores seja por economia ou por estilo desejado, fazem a colheita da Carménère no mesmo período das demais uvas e o resultado é um vinho com aspectos muito vegetais, herbáceos e que lembram pimentão amargo. Por isso muita gente reclama!

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A impressão é que o vinho fica meio “verde” nos aromas e isso ocorre simplesmente pelo fato das uvas terem sido colhidas antes da maturação ideal. Claro que tem gente que adora essas características, por isso que é normal descreverem a uva como “ame ou odeie”. Entretanto, quando ela é colhida mais madura, os vinhos se tornam frutados, macios e os aromas vegetais são discretos, só pra dar complexidade.

E como fazer pra acertar na escolha? Minha dica é que quando estiver em um restaurante, ou loja com bons vendedores, pedir por sugestões de Carménère mais redondos, frutados, que não sejam exageradamente vegetais ou herbáceos.

E o que esperar de um bom Carménère? Geralmente, os bons exemplares da casta, tem aromas de frutas negras, terra molhada e bastante pimenta preta, quando envelhecem em madeira, ganham complexidade e podem apresentar traços de tabaco, baunilha e chocolate. Eu, particularmente, sou fã da uva tanto para os vinhos varietais, feitos apenas com uma uva, como para os cortes, com mais de uma variedade de uva na composição, pois a Carménère faz ótimos vinhos quando casada com a Cabernet Sauvignon.

E como não poderia faltar, algumas sugestões de vinhos Carménère que seguem essa linha:

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Casillero del Diablo Carménère: vinho da gigante Concha y Toro muito difundido aqui no Brasil. A linha tem vinhos de várias uvas, tintas e brancas, mas pra mim o Carmenere é o que mais se destaca. Aromas de geleia de ameixa e chocolate, na boca, é macio com bom corpo e taninos bem suaves. Dá pra encontrar no varejo e o preço varia entre R$30 e R$40.

La Joya Carménère Gran Reseva: grande vinho, muito frutado com notas de amoras e especiarias. É um bom exemplo de vinho com toques vegetais e herbáceos, mas que não passam por cima da fruta. Dá pra reconhecer fácil que é um Carmenere.

Santa Ema Barrel Reserve Carménère: vinho saboroso e que enche a boca com boa estrutura, acidez na medida e taninos aveludados, nada agressivo. No Nariz é cheio de frutas vermelhas e algumas toques de baunilha e ervas frescas. Pode ser encontrado em diversas lojas virtuais e preço fica em torno dos R$50.

Essas foram apenas 3 sugestões de Carménère de estilo mais frutado e agradável, e como bom custo X benefício, é claro. Não especifiquei safras pra não limitar a escolha de vocês. A ideia é que deem uma chance para a Camenere, pois poderão se surpreender. Independentemente das sugestões, quando forem escolher um vinho, o importante é saber como pedir pela indicação para acertarem em cheio.

Se tiverem alguma dúvida, por favor deixem um comentário que eu respondo.