O consumo – e business – de beleza na pós pandemia

19/08/2020  •  Por Thereza  •  Beleza, Pense

Sei que é dificil – pra não dizer ainda utópico – pensar na vida voltando ao normal (seja novo ou seja velho) numa era pós pandemia, logo, sem quarentena e com o dia-a-dia e consumo tentando voltar aos eixos.

Hoje em dia me apego mais à disseminação da vacina do que conscientização geral e lockdown (mesmo que tardio), mas pensando num futurismo, assunto que sempre gosto de abordar aqui no blog e nos podcasts do Fashionismo, como será o futuro do consumo de beleza?

Tenho lido em veículos especializados, prognósticos que indicam alguns movimentos de mercado que, mesmo antes do Corona, já apontavam para mudanças, separei 3 deles:

PRODUTOS TRI-FUNCIONAIS

Lembra do início da onda de skincare, uns 5 anos atrás? Nós passávamos dúzias – talvez literalmente – de produtos no rosto e corpo. Era uma farra, uma alegria se besuntar toda de creme, mas isso provavelmente vai mudar. 

Confesso que já ensaiava essa mudança e comecei a inserir na minha rotina produtos com funções múltiplas e ingredientes que tem funções diversas, por exemplo, o excelente óleo facial da Biossance que tem Esqualano, Vitamina C e Rosas, de manhã só passo ele e com isso tirei outro  produto extra (a vitamina c individual).

E o que se indica nesse momento pós-pandemia, é cada vez mais o surgimento de produtos Tri-Funcionais. Enquanto algumas marcas querem uma função em cada potinho, tudo visando mais dinheiro, surgirão outros produtos, ou até mesmo marcas com esse foco, que irão SINTETIZAR sua rotina de beleza, visando logicamente seu bem-estar, também seu tempo e até mesmo a sustentabilidade.

EMBALAGENS REUTILIZÁVEIS

Sabe quando você comprava uma coquinha gelada de vidro 290ml (saudades!) no bar da esquina e depois devolvia e trocava por outra, tudo com um preço mais em conta? Pois bem, essa prática será mais e mais comum.

Logicamente os refis são tradicionalmente utilizados no mundo da beleza, mas cada vez mais as marcas pouparão o ambiente de novas embalagens e focarão em produto de qualidade e com sustentabilidade.

ASSINATURA DE PRODUTOS

Lá fora vejo em algumas marcas a versão assinatura. Quer comprar um produto de beleza? Eles calculam quanto tempo ele dura na sua rotina e, assim que terminar, meses depois, te mandam uma nova embalagem sem você sequer pedir (mas pagando, claro rs). Pra marca é ótimo para fidelizar o cliente e pra gente vale a pena pois o preço sai em conta e tudo chega no conforto do nosso lar sem a gente planejar ou esvaziar o estoque!

Resumindo, o foco será total em reduzir o desperdício, o consumo em exagero e ainda incentivar um movimento sustentável e ajudar em rotinas menos flexíveis de seus clientes.

De repente num futuro, se Deus quiser, próximo, a gente vai viver a vida mais na rua e o momento de beleza, apesar, de imprescindível, vai ser um detalhe rápido na nossa vida. Será?!

Zara em crise? Saiba o que a gigante da fast fashion tem feito pra correr atrás do tempo perdido!

19/07/2019  •  Por Thereza  •  Pense

O ano era 2015, The True Cost foi lançado na Netflix e esfregava na nossa cara os impactos da moda no quesito social e ambiental. Baixa preocupação com o meio ambiente e alta exploração de trabalhadores, na época, o documentário buscava resposta de grandes empresas e essas, ou fugiam, ou mal sabiam elencar respostas e soluções razoáveis.

Quase 5 anos depois… e não é que o mundo acena para uma mudança? Bom AINDA não mudou como imaginamos ou desejamos, mas nossa relação com a muda já não é mais a mesma. Nos últimos anos, novas marcas éticas surgiram e as gigantes sumiram? A maioria não, mas estão mais atentas e já tem estratégias definidas – e prometidas – para um futuro mais sustentável.

A Zara é a mais polêmica e a que vem se desdobrando para mudar isso. Enquanto a sua grande concorrente, H&M, saiu na frente, a espanhola corre atrás do tempo perdido. Ela está em crise? Não, mas segundo dados, nos últimos anos cresceu menos que o planejado e isso pode ser um sinal amarelo para a gigante.

Nessa semana, a Inditex – conglomerado que detém a Zara, Bershka, Massimo Duti e outras – divulgou um Plano de Sustentabilidade com uma timeline de medidas sustentáveis para suas marcas cumprirem até 2025O grupo está trabalhando para desintoxicar a indústria da moda com iniciativa promovida pelo Greenpeace, quem diria!

Na realidade, o primeiro passo ocorreu há 3 anos com o surgimento da Join Life e teve post aqui. Já percebeu essa linha dentro da Zara? Pois bem, ela é toda pautada em sustentabilidade. As peças  dessa coleção são feitas de algodão orgânico (o processo utiliza 90% menos de água que o tradicional), lã reciclada e Tencel, um tecido feito da celulose da madeira proveniente de florestas certificadas e responsáveis, reduzindo assim o impacto ambiental.

E se no seu lançamento, a linha ocupava 10% das araras da Zara, em 2020 ocupará 25% e a cada ano um crescimento progressivo para se encaixar nessa nova era. Até 2025, o objetivo é usar somente poliéster reciclado e garantir que toda a sua viscose, linho e algodão sejam produzidos de forma mais sustentável. 

E junto às questões sustentáveis, eles citam o aspecto social e humano, o que significa que eles terão mais responsabilidade em suas fábricas e com seus funcionários. Quando o assunto é trabalho escravo, alega-se que as marcas não conseguem ter “controle” sobre fábricas terceirizadas, mas com essa nova política, a ideia – diria, obrigação – é que se tenha 100% de controle.

A própria H&M já trabalha nesse formato e contei num podcast recente que muitas de suas peças já constam na própria etiqueta sua origem (não o país, o endereço direto da fábrica) e o nome dos funcionários que a produziram.

Além disso, quando o assunto é loja, até o final desse ano, as 7500 lojas da Inditex espalhadas pelo mundo, receberão o selo eco-eficiente, pois atenderão aos padrões ecologicamente corretos, reduzindo o consumo de energia em 20% e o consumo de água em 40%. E até 2023, a empresa planeja eliminar todo o plástico de uso único das embalagens para os clientes.

Por fim, até 2020, toda loja vai ter um espaço para descarte de roupa, incentivando assim a reutilização de tecidos da parte deles e, provavelmente, um desconto para os clientes (a H&M oferece 10% off).

Tudo parece muito bem e impressiona os consumidores da fast fashion (ok, me incluo nessa), mas os mais céticos ainda questionam, afinal, o plano de sustentabilidade não faz menção ao modelo original da marca: fast fashion, moda rápida e isso não combina com a tal da sustentabilidade.

Sabia que semanalmente a marca produz 500 modelos, ou seja, 20.000 modelos por ano e muito mais roupa – e menos qualidade – do que gente usando? O que especialistas citam, é que há uma dissonância nesse discurso, pois quando uma marca que lucra com um modelo de negócio ativamente prejudicial ao meio ambiente, elabora um plano de sustentabilidade que não inclui revisão desse modelo, a equação não fecha. O The Slate fez um post muito interessante chamado “A Zara nunca será sustentável”, vale a leitura.

Por outro lado, a Vogue abordou o mesmo tema do sustentabilidade x fast fashion e notou que novas lojas da Zara já podem vir com esse novo modus operandi de slow fashion. “Desacelerar, comprar menos, fazer o que temos durar mais, esse certamente parece ser o caso da mais nova loja da Zara em Nova York, no Hudson Yards (as fotos do post são dessa loja), onde o sentimento geral é de que as peças estão mais editadas e pensadas, há uma abordagem mais calma, reflexiva e de menos-é-mais”. A matéria ainda entrevista 3 designers da marca e sua visão sobre Zara e sustentabilidade, achei muito interessante, pois eles mal aparecem, agora não só aparecem como se posicionam. A conferir.

Não importa o seu lado, seja flexível ou radical, reflexivo ou cético, a mudança no mercado atinge e vai impactar nossa forma de consumo e isso é bom, seja abolir ou reinserir, é uma mudança válida. O tempo está passando rápido, acredita?

 

 

Tecido feito de abacaxi? Laranja?? Algas???

08/04/2019  •  Por Thereza  •  Moda, Pense

Sustentabilidade e fast fashion, palavrinhas que nunca combinaram muito. Agora convenhamos, os tempos são outros, podemos ainda comprar em marcas de moda rápida, consumir esse tipo de roupa, mas cada vez mais temos ficado atentos à mudança do mercado no que diz respeito à sustentabilidade.

E as marcas de fast fashion que não se adaptam e buscam o mínimo de evolução… ficam pra trás! Marcas gigantes – e polêmicas – já tem lançado linhas exclusivas e trabalhadas na sustentabilidade, como a H&M Conscious (falamos aqui) e Zara Join Life (falamos aqui). Se isso ainda é muito pouco num universo que precisa de uma mudança mais drástica, na semana passada foi anunciado um importante passo na descoberta de novos materiais, olha essas 3 inovações  no meio de tecnologia têxtil que a H&M vai lançar na sua próxima coleção.

Piñatex, uma alternativa de couro feita a partir da fibra de celulose das folhas de abacaxi (que se tornam resíduos depois que a fruta é colhida). Essas folhas são descartadas da colheita de abacaxi, portanto, a matéria-prima não requer recursos ambientais adicionais para produzir. Esse neo couro será usado em sandálias e botas.

Orange Fiber, um tecido semelhante à seda feito com cascas de laranjas no final do ciclo de produção de suco, ideal para ser usado em vestidos leves e finos. Em 2017 postei aqui sobre a Salvatore Ferragamo e o uso da casca de laranja italiana para desenvolvimento de tecido para a criação de seus icônicos lenços.

Bloom Foam, uma espuma de alto desempenho feita a partir de biomassa de algas, que “limpa o ambiente e reduz o risco de proliferação de algas, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis”, segundo o site da empresa que ainda afirma que 225 garrafas de água são economizadas para cada par de calçado usado com o material. Essa espuma será usada principalmente nos solados dos calçados da marca.

Segundo a H&M, seu grande desafio é aliar sustentabilidade ao estilo, “Se a estética não for 100%, nossos clientes provavelmente não vão gostar”. As fotos acima são da campanha da nova coleção (lançada agora em abril) e que já usam os 3 materiais, além do cada vez mais comum algodão orgânico.

E esse papo me lembrou muito de uma palestra que assisti ano passado do Oskar Metsavaht (aka Osklen) no lançamento do seu documentário sobre sustentabilidade. Ele bateu nessa mesma tecla e revelou que o grande desafio da sua marca é trazer essa dose de fashionismo às roupas sustentáveis e tirar o estigma que roupa assim não tem estilo.

Confesso que ainda estou longe de abolir marcas não-sustentáveis do meu armário, mas amo esse universo de tecnologia e descoberta de novos materiais no mundo da moda, sem dúvida um tema que precisa fazer muito mais parte de quem ama – e trabalha –  com moda!